Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

“Se você pensa que a aventura é perigosa, eu sugiro que você experimente a rotina… é mortal.” – Paulo Coelho

Quantas vezes nós nos pegamos reclamando da falta de tempo, presos à uma rotina que se limita basicamente ao trabalho e às coisas relacionadas a ele? Em São Paulo, por exemplo, as pessoas passam em média 3 horas do dia presos no trânsito. Acrescente aí, pelo menos, mais 8 horas de trabalho e assim se vai quase metade das 24 horas que um dia tem. Tirando o período de sono, realmente acaba sobrando pouco tempo para aventuras.

Para não enlouquecer, às vezes é preciso se afastar desta correria, criar novos hábitos, viver outras experiências e então se reencontrar. A história de Guilherme Bromberg, um curitibano de nascimento e paulistano de coração, é uma demonstração perfeita disso.

Mesmo com uma carreira bem sucedida, aos 40 anos Guilherme começou a sentir uma inquietação. Segundo ele, foi um processo lento. Durante aproximadamente 2 anos o executivo percebeu crescimento em uma série de incômodos gerados pelo estresse profissional e seus hábitos diários, que incluíam excessos na alimentação e na bebida, falta de atividades físicas e uma constante falta de motivação.

Esta inquietação fez com que ele buscasse ajuda externa e o levou a seguir outros caminhos para se reencontrar. Após passar por uma temporada imerso em práticas budistas na Índia e no Japão, ele decidiu encarar sozinho a famosa Pacific Crest Trail, uma das trilhas mais longas e desafiadoras do continente americano, cortando praticamente toda a costa oeste dos Estados Unidos (se você quer saber mais sobre a PCT, clique aqui).

Ele compartilhou conosco muitos detalhes desta experiência e nos contou como essa aventura o ajudou a enxergar a vida de um jeito diferente.

Confira abaixo todos os detalhes deste bate-papo e inspire-se nessa história!

The North Face Brasil: Como você percebeu que a sua rotina tradicional já não lhe satisfazia por completo?

Guilherme Bromberg: Foi um processo lento, de uns 2 anos, que foi se agravando pouco a pouco e gerando incômodos profundos, mas pouco perceptíveis, tanto no relacionamento afetivo, quanto no profissional e nos hábitos diários, como a falta de esportes, os excessos de comida e bebida, o estresse profissional e a falta de motivação e indiferença ao dia a dia.

Mas, o principal gatilho foi o estress profissional mesmo, o qual me fez procurar ajuda. Eu me sentia como se estivesse atolado e quanto mais acelerava mais afundava. Em resumo, sentia que aquela fotografia profissional com todos seus elementos e possíveis desdobramentos a curto, médio e longo prazo não me correspondia.

E foi quando decidi desestagnar. Comecei focado num coaching profissional com a Thais Pegoraro (aventureira e escaladora), mas as conclusões daquele processo ainda não condiziam com meu sentimento, o que me fez vasculhar outras opções, como cursos, palestras e orientações. Em um certo momento, foi despertando um interesse e uma curiosidade de me aprofundar nos elementos mais psicológicos e filosóficos da minha formação e da minha vida, o que resultou em algumas sessões de coaching terapêutico de vida, para entender como eu poderia me reconectar verdadeiramente, afinar meus objetivos, interesses, propósitos e as estratégias mais adequadas para a direção de vida que gostaria de seguir adiante.

TNF: Como e quando foi a decisão de dar uma reviravolta e tirar um período “sabático” ou de “férias” para se dedicar a cumprir a PCT?

GB: No desenrolar deste processo introspectivo de observação, avaliação e opções de novas direções, que se encaixassem aos meus verdadeiros interesses e propósitos, fui concluindo que precisava me afastar provisoriamente do ambiente que estava inserido e reorganizar aquela fotografia de vida. Precisava voltar aos meus valores essenciais, fazer esporte, viajar, explorar, estudar, me aventurar, conhecer novos ambientes, ecossistemas, pessoas, culturas. Mas, apesar desta certeza, eu ainda estava bastante perdido, sem clareza de direção ou destino e de como iria executar tudo isso, mas principalmente ainda não tinha clareza de qual seria o propósito que validasse esse retorno aos meus ideais.

E no meio deste turbilhão introspectivo, fui praticamente obrigado a tirar 1 mês de férias consecutivas da empresa, na qual decidi fazer uma viagem com foco na minha prática Budista de Nitiren Dasihonim. Comecei por Bodigaia, na Índia, e na sequência para o Japão. Foi no Japão, escalando o Monte Fuji, que “caiu a minha ficha”, evidenciada pelas lembranças dos elementos de trilha que experimentei 10 anos antes no caminho francês à Santiago de Compostela, de que eu queria “voltar para a Natureza e me reconectar” através de uma longa aventura reflexiva, dando origem a ideia de compartilhar minha aventura pelo Instagram @Trilhas_e_conexoes. Foi apenas após começar as pesquisas, a verificar as opções de trilhas longas, e por comentários recorrentes de um amigo a respeito da PCT, que decidi mesmo pela Pacific Crest Trail. Fiquei com muita vontade de trilhar a CDT(Continental Divise Trail) no lugar, mas concluí que, para uma primeira trilha de longa distância, seria muito mais complexo.

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

TNF: Quais foram os cuidados que você teve no preparo para encarar essa trilha tão desafiadora?

GB: O maior cuidado foi assegurar que as informações colhidas eram as mais assertivas e corretas possíveis. Isto é, que me corresponderiam, considerando a imensa quantidade e diversidade de informações disponíveis a respeito da trilha, chegando até a serem contraditórias.  Com esse objetivo em mente, fiz contato com profissionais experientes de trilha e da PCT e renomados atletas de montanha para uma abordagem inicial no planejamento, que fosse o mais assertiva possível. Principalmente, desenvolvi um planejamento que fosse o mais adequado as minhas características pessoais específicas e meus interesses específicos, pois o mais difícil é entender o que corresponde e o que não corresponde ao estilo individual de quem faz a trilha. Acabei até mudando todo o meu planejamento de suprimentos e abastecimento na última hora, faltando apenas 1 semana para o início.

TNF: Quanto tempo levou desde que a ideia surgisse até o momento em que você embarcou com as malas prontas?

GB: Iniciei a trilha no dia 1º de maio de 2017. A ideia surgiu em agosto de 2016 e embarquei para os EUA para alinhamentos finais (logística e equipamentos) no dia 19 de abril de 2017, logo, foram 9 meses.

TNF: Quanto de dinheiro, em média, é necessário guardar para conseguir fazer a trilha sem aperto?

GB: Acho que o mais complicado não é guardar apenas, mas ficar tanto tempo “sem fazer dinheiro”, para não passar aperto depois da trilha.

A trilha pode ser feita de diversas maneiras e com grandezas financeiras bem diferentes, pois depende muito da pré-disposição de cada “hiker” em gastar mais ou menos com os equipamentos “ultralight”, que são bem mais caros, além de considerar o nível de conforto e lazer quando se faz necessário sair da trilha para abastecimento.

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Em geral, a comida de trilha do dia a dia acaba sendo bem barata, mas peca por aspectos nutricionais, o que demanda uma alimentação mais cuidadosa ao sair da trilha, priorizando alimentos frescos que acabam sendo mais caros.

Os custos variam muito, principalmente entre equipamentos e suas trocas, transporte, seguros (saúde, vida, remoção), estadias antes, durante e depois da trilha, todo abastecimento de comida (prévio ou ao longo do percurso) entre outros. É muito difícil afirmar um custo médio, tudo vai depender da abordagem planejada, li e pesquisei todo tipo de média de gastos, variando entre US$ 5000 a US$ 12000, para o período.

TNF: Quais foram os maiores desafios durante a trilha?

GB: O desafio mais difícil é o mental. É manter-se motivado.

Os percursos são difíceis, mesmo sendo uma trilha bem cuidada e com manutenção constante.  As metas diárias são longas e extenuantes, pois se faz necessário as longas distâncias para conseguir chegar antes das nevascas do inverno seguinte.

Mas os desafios são inúmeros, entre acertar o planejamento, aguentar o calor, suportar as longas distâncias, carregar o mínimo possível de peso, não errar na navegação, não se machucar, se alimentar corretamente e manter-se saudável,  cruzar os rios, riachos e suas correntezas, ser assertivo e calmo na tomada das decisões, evitar problemas com animais (peçonhentos ou não), não adoecer, tolerar as dores constantes, tolerar a falta de banho e as questões higiênicas, aguentar os próprios pensamentos e a possível solitude (o que pode ser evitado), e o que vi ocorrer recorrentemente foi a angustia de muitos hikers pela distância de suas famílias e de seus entes queridos.

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

No meu caso, tive um canelite (periostite medial da tíbia por estresse) bem séria, que poderia ter se tornado uma fratura, tive um início de necrose por picada de aranha, quase despenquei de um desfiladeiro quanto mudei minha rota para conseguir cruzar uma encosta congelada, passei fome, passei frio com risco de hipotermia, passei muito calor no deserto e fiquei com muito medo ao escutar a respiração de um urso sem conseguir enxerga-lo.

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Além de que, a temporada de 2017 foi um dos anos mais difíceis de toda a história da trilha em decorrência do nível excessivo de neve acumulada e de todos incêndios que ocorreram. No ano foram registradas 7 mortes na trilha, por motivos como, insolação, quedas de precipícios e afogamentos nas tentativas de cruzar os riachos.

TNF: Quais foram as maiores conquistas e aprendizados?

GB: A maior conquista foi ter chegado ao Canadá dentro do prazo idealizado com saúde, trilhando continuamente, sem pular etapas da trilha aberta (os incêndios selvagens fecharam oficialmente diversos trechos da trilha).

Quanto à questão dos aprendizados, diria que aprendi a precisar de muito pouco e de apreciar ainda mais a simplicidade das coisas.  Na verdade, acho que ainda não digeri suficientemente tudo que vivi para especificar todos aprendizados.

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

TNF: Qual é a sua melhor lembrança?

GB: Seriam LEMBRANÇAS, no plural e em caixa alta! rsrsrs

Os crepúsculos, as alvoradas são as minhas favoritas, a cultura da trilha e as pessoas, as montanhas, o infinito do horizonte, a sensação de unidade com aquele ecossistema, mas, essencialmente, o silêncio externo e interno.

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

TNF: O que não pode faltar na mala de quem vai para a PCT?

GB: Na mochila da PCT só deve se carregar o que não pode faltar, nada mais, nada menos!

TNF: O que você tirou de lição depois de tantos quilômetros quase solitários?

GB: Foram tantas que fica difícil começar a descrever, mas de bate pronto comento 2 que foram constantes … A Dor é inevitável, mas sofrer é uma opção, lição decorrente das constantes dores físicas, não me lembro nenhum dia sequer dos 145 dias que passei na trilha sem sentir alguma dor.

Outra lição é muito relacionada à minha pratica budista de observação da mente e da importância de controlar os próprios pensamentos, principalmente quando se entra em “looping” negativo. Eu sempre fiz questão de caminhar sem qualquer tipo de música ou podcast (super comum entre os jovens), por ser importante para a segurança e até um privilégio para escutar melhor a natureza e seus habitantes.  O diálogo interno é algo constante e pode ser algo muito incômodo dependendo do que se deixa vir, e se faz extremamente necessário controlar, frear e mudar a direção destes pensamentos negativos. O meu truque para isso foi a constante recitação do Daimoku.

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

Foto: Guilherme Bromberg/Arquivo Pessoal

TNF: Essa experiência modificou a sua vida ou o seu olhar sobre o mundo de alguma forma?

GB: Acho que corroborou muito com a minha filosofia e prática budista de vida, mas foi uma experiência e uma aventura fora de série. Eu me sinto realmente privilegiado de ter sido o 1º homem brasileiro a completar a Pacific Crest Trail continuamente numa mesma temporada e num ano completamente fora dos padrões e de condições extremas.

TNF: Quais conselhos você daria para alguém que quer fazer o mesmo?

GB: Trilhe 1 dia, 1 semana, 1 mês, vários meses, de qualquer trilha de qualquer lugar e se for de longa distância melhor ainda… Consiga tempo para recarregar-se imerso na Natureza!

Planeje com cuidado e atenção. Saiba encontrar as informações corretas que correspondam ao seu estilo/personalidade, descubra o seu propósito que valide todo o esforço para a conclusão da aventura e, principalmente, não compita com ninguém nem com nada.  Aproveite a jornada, não se prenda apenas ao objetivo de concluir, levante sempre a cabeça, olhe ao redor, sinta aquela energia toda, aquele ecossistema com todo o seu ser, não só com o seu intelecto e seus pré-conceitos, aceite o inesperado e incontrolável, divirta-se mas tenha sempre um plano de segurança, fuga ou resgate caso necessite.

 

 

Escrito por Thaís Teisen
Thaís Teisen é jornalista, formada pela FIAM-FAAM, com especialização em Mídias Digitais pela Universidade Metodista de São Paulo. É apaixonada por esportes, natureza, música e faz parte do time The North Face de Conteúdo Digital.