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Conheça a história do brasileiro Cristiano Marcelino, que saiu do Rio de Janeiro para correr a “Arrowhead Winter Ultra Race”, uma das ultramaratonas mais difíceis do mundo.

A “Arrowhead Winter Ultra Race” é considerada uma das ultramaratonas mais difíceis do mundo, em sua 13ª edição o percurso é de 135 milhas (217 km) e deve ser concluído non-stop com um limite de 60 horas de duração. A corrida é realizada em Minnesota, extremo norte dos EUA.

A largada é em International Falls, a cerca de uma milha da fronteira com o Canadá, o percurso é 100% na neve pela Arrowhead State Trail com chegada em Tower, a sudoeste da largada, aonde a temperatura do ar no pico do inverno norte americano (época da corrida) chega até na casa dos -40º C. Além das dificuldades geradas pela temperatura, o atleta não tem suporte externo, o percurso é repleto de subidas, só existem três pontos de apoio e os atletas devem puxar um sled (tipo um trenó) com cerca de 30 kg de equipamentos, dificultando ainda mais que os ultracorredores cheguem ao final da competição.

Mas, entre os que têm coragem de enfrentar esses desafios, está um brasileiro, carioca, que não se deixa intimidar por nenhuma dificuldade: Cristiano Marcelino. Ele é Bombeiro Militar do Rio de Janeiro e professor de Educação Física, muito conhecido pela sua experiência em ultramaratonas, possuindo 42 longas provas em seu currículo. Entre as corridas já feitas está uma prova 280 km, finalizada num tempo de 52 horas seguidas.

Os ambientes das disputas são os mais variados e inacreditáveis possíveis, como a Arrowhead Winter Ultra Race, que faz parte da Bad 135 Miles World Cup, um evento composto das três ultramaratonas de 135 milhas mais extremas do mundo. Marcelino já havia competido nas outras duas corridas antes: Badwater Ultramarathon, com 217 km non-stop no Death Valley (Vale da Morte), deserto na Califórnia com temperaturas de até 55º C; e Brazil Ultramarathon, com 217 km non-stop na Serra da Mantiqueira, interior de SP e MG, que além de calor e umidade alta conta com mais de 6.000 m de desnível positivo acumulado entre as longas subidas de montanhas.

A importância dos equipamentos na Arrowhead Winter Ultra Race

Para se chegar à linha de largada da Arrowhead Winter Ultra Race o atleta deve cumprir várias exigências que serão checadas no início e fim da competição. O fator principal é a segurança do atleta, que fica isolado por muitas horas sob o frio extremo. Para isso, ele deve ter um equipamento de primeira linha e apresentar os itens obrigatórios sempre que exigidos. Na prova deste ano, Marcelino contou com apoio da The North Face e levou um saco de dormir TNF Dark Star para -40º C, que também deve ser utilizado com um saco de bivaque e um isolante térmico. Nesta prova, o atleta só tem praticamente um ponto de apoio abrigado para descanso (checkpoint 2 = 112 km), fora isso, se quiser parar para um descanso rápido deverá utilizar estes itens para deitar na neve.

Correr em locais com temperaturas extremas também exige um cuidado específico com as escolhas das roupas. São várias camadas de calças e jaquetas. Nesta prova, Marcelino levou a calça impermeável e respirável TNF Venture, além da jaqueta TNF Independence, para garantir máxima proteção mesmo em um ambiente tão frio.

Para segurança das mãos, um ponto nefrálgico de atenção, o atleta utilizou as luvas TNF Triclimate, com três camadas de proteção. Durante esta prova, o sled dos atletas ainda deve conter vários outros itens de necessidade básica, como garrafas térmicas para todos os líquidos, fogareiro, combustível e panela para derreter neve, alimentação para toda a corrida, incluindo 3.000 calorias extras, que podem ser consumidas apenas em caso de emergência. A organização ainda tem muitos outros itens obrigatórios, que somam uma carga de 30 kg, o que dificulta muito a progressão dos atletas na neve, sobretudo nas inúmeras subidas que têm quase 2.000 m de desnível positivo acumulado. Todos esses desafios resultam numa assustadora marca de 60% de desistência de corredores durante a prova.

A preparação no verão carioca

Marcelino, que é de Niterói/RJ, onde a temperatura na época da prova passa facilmente de 40º C todos os dias, além dos treinos rotineiros, fez dois tipos de treinamento específicos para a Arrowhead Winter Ultra Race: muita corrida na areia da praia puxando peso para simular o sled na neve; e treino dentro de uma câmara frigorífica, num distribuidor de pescados perto da casa dele, onde três vezes na semana colocava uma esteira lá dentro e treinava durante horas.

Após meses de treinos intensos, que além de milhares de quilômetros de corrida incluíam musculação, massoterapia e acompanhamento nutricional, Marcelino embarcou para o norte dos EUA com uma semana de antecedência para os preparativos finais.

A corrida

A corrida teve início às 7h da manhã do dia 30/01/2017, contando com a elite da ultradistância mundial, na verdade na região da prova à luz solar é bem limitada – somente entre 8h da manhã e 16h – todas as demais 16 horas do dia são na penumbra da noite e a prova ainda foi realizada em lua nova, tudo para deixar a disputa mais sombria.

A largada foi realizada à temperatura de -15º C, porém com prognóstico de queda intensa de neve e aumento do frio durante a prova. O trecho inicial até o checkpoint 1 era de 58 km, até um posto de combustível numa rodovia próxima à trilha, porém até lá o caminho foi árduo. Após duas horas desde o início da prova, começou a nevar, tornando cada vez a neve mais fofa para correr e puxar o sled. Marcelino fez este primeiro trecho em 9h36min, ficando 1h15min no checkpoint para alimentação e troca de roupas, retomando o percurso já de noite e já com muitas subidas pela frente.

O segundo trecho, ainda nevando sem parar, era de 54 km e com muitas subidas e à noite tudo ficava mais difícil. Marcelino correu a noite inteira sem parar e somente por volta das 2h da manhã que parou de nevar, contabilizando mais de 17 horas de precipitação de neve sem cessar. A temperatura já passava da casa dos -20º C. Para chegar ao checkpoint 2, o trecho final era composto de uma travessia de mais de 2 km por cima de um lago totalmente congelado. Marcelino chegou ao checkpoint no fim da madrugada com 23h09min de prova e aproveitou bem seu único ponto abrigado na prova para descansar um pouco, se alimentar, trocar de roupa e seguir depois de 2h29min.

Agora pela frente teria o pior trecho da prova, com 65 km de extensão até o checkpoint 3, que é somente uma tenda montada na trilha da prova. Marcelino, portanto, tinha que correr a manhã e tarde inteira e parte de noite. As subidas tornavam o sled cada vez mais pesado de puxar e o frio se intensificava a todo momento. Cada parada no meio da trilha para pegar algo no sled tinha que ser totalmente planejada, pois em poucos segundos as mãos se congelam e aumenta o risco de hipotermia. Nesta segunda noite foi registrada a temperatura de -30º C e sem parar Marcelino chegou ao último checkpoint com 41h12min de prova. O descanso aqui tinha que ser feito na neve e ao ar livre utilizando o equipamento que levava no sled. Após um breve descanso em seu saco de dormir e trocar de roupa e se alimentar na tenda de apoio, Marcelino seguiu ficando ao todo 2h18min no checkpoint.

O último trecho era o menor da prova, com 40 km, porém o cansaço já era extremo e após mais algumas horas Marcelino teve que fazer uma parada rápida para descanso em seu saco de dormir, porém o único lugar disponível para deitar tinha neve com mais de 60 cm de altura acumulada, que só proporcionou um descanso congelante de cerca de 20 minutos. Após esta breve parada, Marcelino seguiu rumo à linha de chegada.

Marcelino completou a corrida com um total de 53h34min. Depois de muito frio e esforço intenso e constante, o bombeiro cruzou a tão desejada linha de chegada da terceira e última prova da Bad 135 Miles World Cup.

Escrito por Thaís Teisen
Thaís Teisen é jornalista, formada pela FIAM-FAAM, com especialização em Mídias Digitais pela Universidade Metodista de São Paulo. É apaixonada por esportes, natureza, música e faz parte do time The North Face de Conteúdo Digital.