Dicas

A América do Sul está cheia de possibilidades para as mais diferentes aventuras e expedições. Entre os meses de fevereiro e março, o carioca Marcelo Castro, escalador e um dos sócios na Agência de Turismo e Aventura Crux Eco, foi comum grupos de amigos guias e escaladores explorar o Cerro Plata, na Argentina. Ele nos contou todos os detalhes e conta tudo o que você precisa saber para explorar o Cordón del Plata.

Confira o relato de Marcelo:

A primeira escalada

“O Cordón del Plata é uma cordilheira de montanhas pertencente ao Cordão Frontal, paralelo ao Cordão Principal, ambos localizados nos Andes. O Plata está em sua totalidade na província de Mendoza (ARGENTINA) nos departamentos de Tupungato e Lujan de Cuyo. Na cordilheira do Plata existem dezenas de montanhas em que as altitudes variam de 3.300 aos 5.900 metros. Da parte alta se vê os rios de Mulas, El Salto, Vallecitos e o Rio Blanco.

O Cerro Plata foi escalado pela primeira vez em 21 de janeiro de 1925 por um grupo composto por Hans Stepanek e Francisco Peters, da Áustria. Somente em março de 1937 um grupo mendocino, pensando serem pioneiros, chegaram ao cume e viram pegadas na terra. Com um pouco mais de procura, acharam um vaso de porcelana fechado com uma carta dentro documentada com os nomes e títulos dos que participaram da primeira ascensão de 1925.”

A paisagem

“O Cordón del Plata tem paisagens muito interessantes principalmente para quem não conhece regiões desérticas de montanha. É um local de difícil acesso e inóspito para a prática de montanhismo extremo, caminhadas longas e escalada. Nas encostas de várias montanhas existem vias de diferentes dificuldades, amplitudes e altitudes, um verdadeiro campo-escola para o andinismo e acessível a qualquer bolso, visto que não é necessário pagar por permisos (autorizações de entrada e ingresso de uso) – como se faz necessário, por exemplo, para escalar seu vizinho mais famoso Aconcagua.”

Como chegar

“O acesso ao Cordón del Plata se faz desde a cidade de Mendoza – província de mesmo nome. O ponto de partida para a montanha está em Vallecitos. Mas, antes de começar a subida, é preciso passar pela estação de Guarda Parques (antigo refúgio de montanhistas transformado em escritório de uso dos guardas do parque), para controle de entrada e retirada do saco de detritos.”

Subindo a montanha

O primeiro acampamento da montanha fica apenas 300 metros verticais mais acima: O pampa de Las Veguitas. Deste acampamento, situado a 3.200 metros de altitude, é comum os andinistas fazerem uma ascensão ao Cerro San Bernardo, de 4.150 metros, situado em frente ao acampamento, sendo sua rota normal avistada desde lá. A rota normal não apresenta grandes dificuldades, e uma ascensão ao cume ajuda muito a fazer uma aclimatação para os acampamentos superiores e/ou para o ataque ao cume.

Seguindo o trajeto planejado, o próximo acampamento é o Piedra Grande, a 3.500 metros de altitude. O caminho até lá é bem fácil. No começo, a trilha serpenteia um córrego ao lado do Arroyo Vallecitos, porém mais tarde toma-se distância do rio. Piedra Grande não nos pareceu um bom lugar para acampar, pois além da tal piedra estar em balanço em cima da sua cabeça, fica um pouco distante da água – que, nessa região, pode ficar um tanto turbulenta por carregar muita matéria em suspensão. Levar esterilizante de água sempre.

Dependendo de seu planejamento, pode-se poupar um acampamento. Como Piedra Grande é muito próximo a Veguitas, muita gente passa direto por esse acampamento e pernoita em Salto ou Salto Superior (Veguitas também tem seu Vegas Superior), o acampamento base do Cordón del Plata, situado a 4.200 metros de altitude.”

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Nas encostas de várias montanhas existem vias de diferentes dificuldades, amplitudes e altitudes

Acampamento Base

O caminho de Piedra Grande até o Salto, como é chamado o acampamento base, começa sem grandes esforços. No percurso observa-se uma grande mudança ambiental saindo de cotas altimétrica que permitem o acúmulo de resistentes espécies arbustivas ilhadas até cotas onde a vegetação é muito rara. No caminho andamos sobre enormes blocos rochosos destruídos e carregados pela ação do gelo, até galgarmos uma colina constituída de rochas depositadas pela ação de uma geleira orientada pelo sentido do movimento do gelo, que neste local assume uma forma de grande dimensão.

Muito próximo ao Salto se encontra a parte mais difícil da aproximação da montanha, um terreno bastante inclinado e escorregadio chamado de “infernillo”, que leva algum tempo e paciência para ser vencido.

Salto é um bom local para estabelecer acampamento, porém há que se tomar cuidado com a água, pois muitos preguiçosos usam a beirada do rio como banheiro, contaminando a água. Por isso utilize somente a água acima do acampamento.”

Dicas de acampamento

Em Salto venta muito, por isso é bom fazer muros de proteção para a barraca. O clima do Cordón del Plata é bastante peculiar. No verão os dias amanhecem claros sem nuvens no céu, porém com o passar do tempo vão se formando nuvens e à tarde o céu costuma fechar. Pode até nevar, bem normal fora do verão. À noite é comum ter tempestades de raios que duram até o amanhecer. Por isso, ao acordar cedo para um ataque ao cume, não desista ao ver o céu com muitos raios, pois isso é absolutamente esperado – e lindo de se ver.

Do Salto não é possível avistar o Cerro Plata, pois o Cerro Lomas Amarillas fecha a visão. Porém muito próximo ao acampamento existem algumas morenas das quais se observa à esquerda e no alto a maior elevação do Cordón del Plata.
Por essa mesma morena faz-se acesso ao Cerro Rincón, por sua rota normal e rotas mais técnicas. Caminhando uns 15 minutos pelas morenas, chega-se a um glaciar na base da encosta dessa montanha, de onde saem vias mais técnicas.

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O clima do Cordón del Plata é bastante peculiar.

Quando ir

As escaladas mais técnicas são recomendáveis no mês de novembro e dezembro. Em janeiro e fevereiro o gelo está bastante derretido e é comum avalanches, principalmente de rocha, que com o derretimento do permafrost perdem sustentação e cedem. As escaladas em setembro também não são muito recomendáveis devido à famosa tormenta de Santa Rosa que costuma varrer os Andes neste período.

Seguindo na subida

“Acima de Salto existe ainda um outro acampamento a 4.600 metros bom (nada a mais de 4.000 metros é bom, mas…) para a ascensão ao Cerro Plata, La Hoyada.
La Hoyada tem este nome por conta do local que costuma agir como uma panela de pressão ao contrário. Por situar-se em um anfiteatro rodeado por montanhas altas, o vento que corre acima destas elevações costuma arrastar o ar acima fazendo que a pressão do ar diminua e reproduza a sensação de mal-estar de uma altitude mais elevada. É uma prova de fogo para quem quer testar a aclimatação com um pernoite gelado e com ventos.

Para ascender ao Cerro Plata é recomendável sair bem cedo, antes do sol nascer, para evitar que o regresso se dê depois que o tempo fecha à tarde. Portanto se uma pessoa não chegar ao cume pouco depois do meio dia, é recomendável o regresso e depois uma segunda tentativa saindo mais cedo para não haver erro, isso se sobrar energia, depois toda esta odisséia.

Saindo de Hoyada o caminho sobe um filo à esquerda, que une o Cerro Lomas Amarillas ao portezuelo entre o Cerro Plata e Vallecitos. Ao chegar a este portezuelo, tem-se uma visão extraordinária da face sul do Aconcagua, destacando-se no horizonte e mostrando toda sua opulência.
A partir daí o caminho sobe à esquerda margeando a pendente do Plata. Este caminho dura uma eternidade, mas em nenhum ponto tem algum local de dificuldade, apenas uma inclinação mais leve e constante, além de uma exposição que deve ser respeitada.”

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As escaladas mais técnicas são recomendáveis no mês de novembro e dezembro.

O helicóptero

“Depois desta ascensão tem-se uma surpresa, chegamos em um pequeno platô onde tem um destroço de um helicóptero. Este Helicóptero, um Aerospatiale AS-315 B “Lama”, ou somente Lama como é chamado na Argentina.
Os Helicópteros Lama foram desenhados para ter autonomia em grande altitude e foram comprados na década de 70 pela força aérea Argentina para trabalhar na zona cordilheirana. Em 1996, militares argentinos testando o helicóptero Lama pousaram no cume do Cerro Plata, o intento deu certo, porém, os fortes ventos não permitiram que o helicóptero alçasse vôo novamente. Os pilotos foram resgatados, porém na tentativa de resgatar o helicóptero, uma outra aeronave que se aproximava da montanha chocou-se com o cume devido à fortes rajadas de ventos, matando os três oficiais à bordo.

Uma vez que você encontrar o Helicóptero pode ficar feliz, pois você está praticamente no cume. Após o contorno do Falso Plata – parte do Cerro que fica visível, mas que não é o cume ainda – nos deparamos com placas informativas de que você está bem perto do cume.”

Perto do topo

“Saindo do platô do Helicóptero, sobe-se uma pequena pendente e já se chega no ponto mais elevado da montanha, o cume do Cerro Plata, de onde pode-se observar várias montanhas ao redor, como o Aconcagua e o Tupungato muito próximos.
A altitude oficial realizada pelo Instituto geográfico militar da Argentina em 1991 aponta o cume do Cerro Plata como tendo 6300 metros, no entanto, as medições hoje apontam um pouco mais que 5970 metros, e há dúvidas ainda quanto a altitude oficial da montanha.

O Cordón del Plata a cada ano, vem se tornando um local mais importante para o andinismo. Por muitos anos, esse cordão da cordilheira esteve na sombra do Aconcágua, sendo que andinistas frequentavam o local apenas para aclimatar-se para o Sentinela de Pedra – não que isso não seja uma boa ideia. Hoje o Cordón del Plata tem tido cada vez mais seu brilho próprio, uma vez que muitas rotas ali descritas eram desconhecidas por estrangeiros e têm se tornado destino de muitos escaladores que procuram na montanha a paz e o desafio de escalar paredes pouco frequentadas e, no entanto, dispondo do conforto de estar próximo a uma grande cidade repleta de estrutura para o andinismo como Mendoza.”

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O Cordón del Plata tem paisagens muito interessantes principalmente para quem não conhece regiões desérticas de montanha. – Foto: Marcelo Castro

Dicas de guia:

1 – Refúgio é Refu, Felipe é Feli e tudo que é substantivo de 3 ou mais sílabas automaticamente perdem a(s) sílaba(s) final(is). Não estranhe. Se sinta em casa pois é a hospitalidade mendocina presente.

2 – Leve seu lixo de volta e caso tenha mais experiência, use um shitbag ou shitube, que são sacos ou tubos que levam seu excremento de volta para a civilização. Em breve teremos problemas com a fossilização de fezes, pois o local mantém congelado tudo que fica por lá.

3 – Organize seus documentos de modo que fiquem todos em um lugar só, junto com seu dinheiro e tickets de ônibus e afins. Você vai precisar deles em vários locais e perder um passaporte neste lugar é um transtorno.

4 – Não use botas novas. Se programe para usar botas já amaciadas.

5 – Não tome remédios para melhorar sua performance ou para mascarar os efeitos da altitude. Caso faça uma ascensão ao cume e tenha dor de cabeça, use o medicamento certo para você ter uma boa noite de sono. Caso já conheça bem o seu corpo e suas reações, siga o procedimento que já está acostumado, evite escutar o amigo (a) montanhista, pois só você sabe como vai reagir aos medicamentos.


Escrito por

Thaís Teisen

Jornalista, formada pela FIAM-FAAM, com especialização em Mídias Digitais pela Universidade Metodista de São Paulo. É apaixonada por esportes, natureza, música e faz parte do time The North Face de Conteúdo Digital.