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O Get Out Side decidiu encarar novos desafios neste ultimo mês. A dupla que já tem uma bagagem imensa de destinos e vivências incríveis, partiu rumo a algo ainda maior. E coloca maior nisso! O objetivo era subir três montanhas acima de 6.000m em 10 dias! Confira o que os levou a encarar essa jornada e tudo que rolou durante essa aventura.

O mais alto que tínhamos chegado antes de encarar a nossa primeira experiência de alta montanha era 5.592 metros de altitude, em um vulcão muito conhecido e turístico no Deserto do Atacama, o Lascar. Como tiramos de letra esta subida, achavámos que estava na hora de encarar uma montanha mais alta e mais difícil. E essa montanha tinha nome. Era o Ojos del Salado e seus 6893 metros de altitude.

Ficamos um mês em preparação para o que seria a nossa primeira experiência de alta montanha. Alimentação saudável, muita hidratação e treinos no mais alto que conseguíamos estar (2.400m de altitude de San Pedro de Atacama). Acontece que Ojos del Salado não deu trégua. Não teve um dia sequer em que olhávamos a previsão do tempo e víamos uma janela minimamente estável que nos desse esperança de conseguir encarar essa aventura. Muito pelo contrário, o tempo só piorava, assim como nossa frustração da espera.

Percebemos que estava na hora de mudar os planos. Começamos a pesquisar outras montanhas, mas com a frustração da expedição do Ojos del Salado não ter ido adiante, poucas pareciam ser tão desafiadoras. Até que começamos a ler sobre o Nevado Sajama!

Sobre o Nevado Sajama

O Sajama é um vulcão inativo que, com seus 6.542m de altitude, é a montanha mais alta da Bolívia. O Nevado Sajama era considerado sagrado pelos habitantes das cidades próximas, o que na nossa opinião, faz dela ainda mais especial. Seu nome vem do aymara “Chak.jjaña”, que significa “Para o Oeste”.

A primeira tentativa de escalar o Sajama aconteceu em 1927, mas os escaladores apenas lograram êxito de alcançar o cume em 1939.

 

O vulcão está localizado no parque de mesmo nome – Parque Nacional Sajama. A vila que fica aos seus pés é bem pitoresca e charmosa. Um lugar onde o frio não dá trégua e se vê mais lhamas que pessoas. Mas saiba que ao encontrar uma pessoa, ela irá te cumprimentar com um grande sorriso e acolhimento no olhar. Tudo isso faz da experiência “Sajama” muito autêntica.

Só tinha um problema! Sajana não é indicada como primeira experiência em alta montanha por ter um nível técnico considerado alto. Não deixamos isso nos abalar e fizemos um plano: subir três montanhas acima de 6.000m em 10 dias, entre elas (e por último) o Nevado Sajama. Assim nos aclimataríamos melhor e quando chegasse sua vez já teríamos um pouco mais de “experiência”.

Acotango

O Acotango foi nosso primeiro desafio. A montanha possui 6.052m de altura e seu nível de dificuldade é considerado baixo por escaladores mais experientes.

Saímos da Vila de Sajama às 4h da manhã. Seguimos em um veículo 4×4 junto com um guia local até o ponto de partida da trilha, a 5.300m de altitude. Começamos a caminhada por volta das 5h45. Nessa primeira experiência percebemos que uma grande parte do êxito depende do seu psicológico. Faz muito frio, você só vê a lanterna apontando para o lugar onde deve dar o próximo passo e muitas vezes se pergunta “o que eu estou fazendo aqui?”. 

Uma montanha que é considerada “fácil” pelos montanhistas mais experientes, foi difícil para nós. No caminho, nos olhávamos e dizíamos “a gente subestimou tudo isso”.  Com paciência e determinação, um passo na frente do outro, chegamos ao cume do Acotango. Foi emocionante!

 

Alguns ajustes necessários!

Tentamos entender o que poderíamos ter feito de “errado” e o que poderíamos melhorar para encarar as próximas montanhas. O mais óbvio para nós, foi a alimentação. Na subida não comemos praticamente nada, a não ser uma barrinha de cereal. Conversando com outras pessoas que encaram desafios como este, vimos o quão amadores fomos. O ideal é comer alimentos altamente calóricos na subida. 

Outros dois pontos que poderíamos melhorar eram a hidratação e a aclimatação. Estávamos bebendo de três a quatro litros de água por dia e pesquisando, vimos que o ideal é um litro de água a cada metro de altura. Por isso, passamos a beber de seis a oito litros de água. Por fim, aproveitamos o tempo que tínhamos até a próxima escalada para fazer caminhadas na altitude para nos aclimatarmos melhor.

Parinacota

Saímos 1h da manhã da Vila Sajama para a nossa ascensão à segunda montanha da expedição. Mais uma vez, fomos com veículo 4×4, mas o ponto de partida foi a 5.100m de altura. Isso significa que a subida seria muito mais longa do que o Acotango, já que o cume do Parinacota fica a 6.380m de altitude. Certamente o desafio era muito maior.

A caminhada começou em um trecho arenoso. Passamos por uma parte com bastante pedras até chegar nas penitentes, que são formações de gelo pontiagudas encontradas em altitudes elevadas e muito comuns nas montanhas da região. O gelo forma pontas alongadas que podem ficar bem altas.

 

Foi nesse momento que percebemos uma grande diferença técnica entre o Acotango e o Parinacota. O desafio no Acotango estava muito relacionado com a altitude e o fato de não termos nos preparado devidamente para a aventura. Já no Parinacota, as penitentes, a exposição ao vento e ao frio faziam com que a subida fosse um pouco mais técnica.

De qualquer maneira, para nós, a ascensão ao Parinacota foi muito mais fácil do que o Acotango. Mesmo que o Parinacota fosse considerado uma montanha mais difícil do que o Acotango, chegamos no cume muito mais tranquilos, e isso tem muita relação com a preparação. Dessa vez, comemos chocolate e outros alimentos hipercalóricos durante toda a subida, no dia anterior havíamos bebido 7 litros de água e descansamos bastante.

Chegamos no topo felizes e um pouco mais esperançosos para a escalada ao Sajama.

 

Sajama

Antes de contar sobre escalada ao Sajama, vale dizer que essa montanha é um pouco diferente das outras. O nível técnico de dificuldade é considerado mais elevado. Enquanto nas outras montanhas dá para fazer um bate e volta no mesmo dia, no Sajama são pelo menos 2 dias de expedição com pernoite no acampamento alto.

O acampamento base do Sajama fica a 4.700m. Já o acampamento alto está a 5.700m e o cume a 6.542m. Nos acampamentos não há nenhum tipo de estrutura. O que significa que você deve levar barraca, saco de dormir, comida e tudo mais para a sua estadia. Até o campo alto tem carregadores da Vila que podem te ajudar com os equipamentos, o que facilita bastante para preservar as energias para o dia de cume.

Embora seja uma montanha emblemática, desde que chegamos a Vila não considerei o Nevado Sajama uma montanha muito convidativa. Enquanto o Acotango e o Parinacota estavam sempre abertos e sem nuvens, era difícil ver o Sajama com sol no cume e aparência amigável. É uma montanha que intimida pela sua formação, grandiosidade e principalmente pela quantidade de gelo.

De qualquer modo, lá estávamos nós. O sentimento era de que passados os 6.000m já era uma vitória, uma vez que o plano era fazer três montanhas acima de 6.000m de altura. Fomos com sangue doce, sabendo que aquela seria uma escalada mais desafiadora e entendendo que essa era a nossa experiência inaugural em alta montanha. Por isso, precisávamos saber a hora de parar.

 É possível chegar de carro até a altura do campo base e foi o que fizemos. De lá, começamos a subir até o campo alto, aproximadamente umas 10h da manhã. Embora haja um desnível de 1000m de altura, a subida de três horas até o campo alto foi relativamente tranquila. A maior parte do caminho era de areia, com alguns trechos de neve e gelo. 

Armamos as barracas e aproveitamos o fim de tarde para descansar, hidratar e nos alimentar. Dormir mesmo, que é bom, confesso que não conseguimos. Muito disso pela ansiedade e porque o nosso ataque ao cume começaria meia noite! Às 23h20 estávamos de pé para tomar “café da manhã” e nos preparar rumo ao cume.

A subida começou por um trecho bem curto de areia com pedra e logo em seguida, um trecho bem perigoso devido à inclinação. O lado bom de estar escuro é que só na volta vimos de fato o que estávamos encarando. Fizemos esse trecho com muita calma, até chegar na parte das penitentes de Sajama, que estavam muito mais altas do que no Parinacota. Isso dificultou um pouco mais a caminhada. 

Eis que quando chegamos a mais ou menos 6.200m de altura o vento e as nuvens começaram a atrapalhar bastante a subida. O tempo havia fechado totalmente, não dava para ver mais do que poucos metros à nossa frente. Os cílios, o cabelo e tudo o que estivesse exposto começou a congelar. Assim como as lágrimas que começaram a cair.

Dessa vez, conseguimos aproveitar! Por mais difícil que a escalada fosse, estávamos 100% presentes ali, realizados por poder subir, ou tentando subir, a montanha mais alta da Bolívia. No Acotango e no Parinacota a ansiedade tomava conta dos pensamentos, de como seria a próxima montanha. Já no Sajama, era só o Sajama, o que foi muito mais gratificante!

Só que o Sajama é psicologicamente desafiador.  Existem três falsos cumes pelo caminho. Você caminha, caminha, caminha, e, quando acha que chegou, vê o que ainda parece ser um “longo caminho” pela frente. Em 6.280m paramos! O Alê estava exausto e, preocupado com a volta. Por isso, decidiu retornar. Já tinha atingido a cota dos 6.000 pela terceira vez e, como todos sabem, o cume é só metade do caminho. Faltavam pouco mais de 200 metros de elevação para atingir o topo, mas qualquer metro nessa altitude é muito desgastante. Foi a decisão certa.

Já eu, Duda, segui  junto com meu guia e mais um colega. Uma hora depois chegamos ao cume da montanha mais alta da Bolívia. Desabei de emoção e felicidade, mesmo sem ver absolutamente nada do que provavelmente seria a vista mais incrível da minha vida. Nevava e as nuvens tapavam qualquer luz solar ou paisagem que podíamos ter.

Nesse momento pensei no quanto havíamos nos desfiado, testado e ido até o nosso limite nessa experiência. Estamos acostumados a fazer trilha e atividades ao ar livre, mas nada do que passamos até hoje se compara ao que a falta de oxigênio na altitude faz com o nosso corpo.

Justamente essa falta,  fez a gente lembrar a cada instante da subida, o quão milagroso e gratificante é viver. Geralmente situações como essa, em que saímos da nossa zona de conforto e nos desafiamos a dar um passo à frente (às vezes até mesmo sem enxergar muitos palmos adiante), nos ensinam muito sobre quem somos e até onde podemos chegar.

 


Escrito por

Rachel Magalhães

Jornalista, formada pela FIAM-FAAM. Apaixonada por aventuras, ama viajar, conhecer novos lugares e estar em contato com a natureza. Faz parte do time da The North Face há oito anos.