Inspiração

Nossos parceiros sempre trazem relatos emocionantes e cheios de inspiração quando voltam de uma grande expedição. Dessa vez, o Carlos Santalena fez diferente. Trouxe para nós o histórico de mensagens que escreveu durante toda sua jornada, rumo ao cume do Makalu. É de arrepiar!

“Este ano parti rumo ao Makalu, quinta montanha mais alta do mundo. Na minha primeira ida ao Nepal, em 2009, o avistei pela primeira vez do cume do Nagarjunpeak e seus 5050m (clássico pico de aclimatação para quem faz o campo base do Everest). Desde então, Makalu sempre esteve no meu imaginário.

Parti em expedição no dia 04 de abril, com o objetivo de conduzir um grupo até o campo base do Everest. Junto comigo estava Léo Pena. Aproveitamos esta trilha para fazer nossa aclimatação e então, seguirmos de helicóptero ao base do Makalu. De lá seguiríamos para o nosso grande desafio.

A trajetória ao campo base do Everest já é uma velha conhecida. Há 11 anos frequento a região, mas sempre enxergo o caminho como uma peregrinação, um trekking contemplativo e uma vivência cultural intensa. Nunca saímos do base da mesma maneira que entramos. Fazia parte do nosso grupo João Saci, que é um guerreiro nato! João que foi vítima de cinco cânceres e teve sua perna amputada, era exemplo para todo o time. A cada passo e a cada vilarejo ele nos dava uma lição de vida e transmitia uma energia sem igual.

Cumprida essa etapa de trekking do Everest e aclimatação, partimos em um voo emocionante que nos levou de Dingboche (4400m), no Vale do Khumbu, para o campo base avançado do Makalu (5695m).

 

22/04/22 – Voo Para Makalu

Meu amor, não sei quando receberá essa mensagem. Chegamos aqui no campo alto, depois de um voo alucinante. Saímos de Dingboche as 6h30 e começamos a sobrevoar o Vale do Khumbu, beirando Ama Dablam. O helicóptero mais parecia um fusca voador, nos sentimos totalmente vulneráveis ao cruzar o Amphu-lapsa e entrar no vale Makalu-Barun! O piloto dizia que o vento estava forte, mas que daria tudo certo. Ao chegar no passo, o helicóptero parou no ar com o motor no limite, cruzou e desceu de frente para o gigante Makalu (cena que nunca mais esquecerei). Pousamos por volta das 7h e fomos recebidos pelos staffs locais.  Somos os primeiros a chegar no acampamento. O restante do grupo deve chegar amanhã!

Ainda pela manhã, saímos para caminhar até o Grampom Point (5900m). A trilha já não existe mais. Caminhamos por cima de morainas gigantescas, nos apoiando em pedras que mais pareciam boulders. O terreno é difícil e inclinado, fácil de se machucar. Subimos até 5800m, quando encontramos algumas cordas para passar um trecho misto vertical de uns 15m. Passamos com tranquilidade, mas com atenção e estado de alerta o tempo todo! Ao chegar no pé da via ficamos desacreditados com a profundidade do vale e com as encostas mistas de rocha e gelo que se estendiam no horizonte até o céu. A rota se mostrou segura, porém longa e com variados trechos técnicos. A montanha mais parece um maciço de três grandes picos de tão admirável que se mostra. Nossos olhos não podem acreditar no que estamos vendo e imediatamente nos sentimos um nada diante da imensidão que estávamos inseridos.

Conseguimos voltar a tempo para o almoço. Comemos um macarrão e passamos a tarde descansando. O clima estava frio, nublado e com neve esparsa. Excelente para se enfiar dentro do saco de dormir -30 e iniciar a leitura ou a escrita rsrsrs!

Ficamos sabendo que a conexão será apenas satelital, o que me traz uma dificuldade pois amo falar com você e com Zeca sempre que posso. Mas sei que essa dificuldade me fará ainda mais forte após essa montanha, e que meu coração voltará cheio de amor para entregar à vocês. O lugar aqui é certamente um dos mais inóspitos e selvagens que já estive. A falta dessa comunicação e acesso extremamente difícil, cria um outro tipo de conexão diretamente ligada com nosso espírito e coração!

Tive uma noite boa e o foco está na montanha! Pela grandiosidade, ela não permitirá desatenção de nossa parte. Temos que estar focados e sentindo seus movimentos.

 

23/04/22 – Segunda Subida ao Crampon Point

Hoje, dia 23, fomos novamente ao Crampon Point em uma hora e quinze, mais rápido que ontem, pois já conhecíamos a rota. Levamos duas barracas comunitárias até lá. Voltamos, almoçamos tibetan Bread com atum e salada de vagem e feijão misturada com creme de leite ou maionese. Agora a tarde começou a chegar o restante do grupo. Os primeiros foram dois amigos italianos. Um deles completou os 14.8 mil no início dos anos 2000 e o outro vem realizando o projeto. Os do México, são um casal que também já escalaram alguns dos 8000 e estão na segunda tentativa do Makalu, que não parece ser uma montanha fácil de nenhuma maneira!

Minhas bagagens com os equipos chegaram. As do Léo ainda não, mas assim que estiverem aqui, tocaremos para cima do base, o C2. Passaremos duas noites lá e tentaremos chegar a quota dos 7000m – subir e aclimatar sem oxigênio. A motivação é alta e as sensações as melhores!  Seremos nós dois nesta empreitada!!

24/04 – Reflexão

Por aqui vivo cada dia em um ambiente que me sinto em casa e uma natureza que me acolhe. Tenho certeza do meu equilíbrio atual e da minha grande prioridade de voltar para você e Zeca! Ainda vamos construir muitas coisas juntos e as montanhas farão parte de nossas vidas. É muito bom ter alguém que me apoia e me faz crescer. Tenho certeza do meu amor e minha enorme vontade de estar todo tempo ao seu lado!

Hoje descansamos. Chegaram os equipos do Léo e amanhã partimos para fazer o que viemos fazer: observar o mundo dos seus pontos mais altos, nos sentindo pequenos e espiritualmente presentes!!! Siga seus treinos e sua vida que eu chegando já vamos armar a próxima!

26/04/22 – Ciclo de Aclimatação

Ontem subimos ao C2. A rota saindo do BC passa pela mesma moraina beirando paredes e cascatas de gelo do rio que corre por ali. Até o Crampon Point, já estávamos acostumados, mas desta vez saímos carregados: Léo com 10kg e eu com 20kg – basicamente todos os equipos individuais e eu ainda agreguei comida, suplementos, medicamentos e eletrônicos. A subida, que na visão dos Sherpas era rápida, nos tardou sete horas de descolamento e 1000 metros de desnível percorridos. Com isso, alcançamos os 6600m de altitude. Léo veio bem até os 6300. De lá para cima, resolvi solterá-lo de mim em alguns trechos por segurança e para começar a usar as piquetas, invés dos bastões. As últimas duas pendentes de mais ou menos 60 graus foram duras!!

Chegamos no acampamento e Léo sentia-se bastante cansado. Dormiu, se hidratou, tomou diamox, dipirona e remédio para pressão, fora o segundo tratamento de antibiótico que vem fazendo por conta da sinusite. Eu e Pasang tomamos café e contemplamos a imensidão. Jantamos por volta de 19h30.

Já estávamos todos dentro da barraca descansando e esperando a hora passar (dormir nessa altitude é uma tarefa complexa. Sonhos intermitentes, alucinações, sonos profundos de 15min que mais parecem durarem 15hs), quando o Leo que capotou a noite, acordou com uma tontura jamais percebida por ele! Tomamos a decisão de descer e descansar mais dois dias antes da próxima incursão. Viver cada dia para tomar as próximas decisões!!

O Makalu, dos 8000m que já estive, é certamente o mais duro. Pode não ser perigoso, não ser o mais alto, nem o mais técnico, mas nitidamente o mais duro!  É uma montanha para quem realmente está afim de se entregar a tamanho desgaste e para quem tem afinado seu autocontrole psico, emocional, espiritual e sexual.

A descida foi treta. Rapel nas cordas fixas, Léo sofrendo com as tonturas e controle no ritmo para que ele não piorasse.  Ah! Ontem falei com Zeca e embora seja apenas algumas palavras, ele sabe que penso nele e que estou com ele, mesmo com toda distância!

Quero dormir uma noite no C3. Isso me dará força e segurança na tirada final. Amanhã a equipe que fixa cordas deve chegar ao 4 e no dia seguinte, cume. Estou ansioso para subir, mas já percebi que se agir com ansiedade por aqui não dará certo!

 

*Após o segundo ciclo no C2, acabamos voltando ao campo base. O Léo ainda não se sentia bem, a tontura não amenizou com a descida. A noite foi crítica e como estávamos em uma montanha inóspita, resolvemos descê-lo até Kathmandu para que fizesse exames e entendesse o que estava acontecendo. Notem que o Léo já havia estado em grandes altitudes muitas vezes e essa foi a primeira vez que teve este sintoma. Eu nunca havia presenciado tal problemática! Pensava que era algum tipo de princípio de edema cerebral causado pela altitude ou até mesmo ataxia.
Em Kathmandu e após uma intervenção médica, Leo voltou às pressas para o Brasil. Passou por uma cirurgia por necrose de septo, causada pela bactéria que o acompanhava e que já se aproximava do cérebro.
Léo é um grande parceiro de escalada, daqueles que não reclama de nada. Está sempre disposto! Fisicamente muito bem treinado e uma consciência ampla sobre a vida. Neste dia, perdi um grande parceiro de cordada, o que certamente me abalou psicologicamente e emocionalmente.
Após o resgate e encaminhamento do Leo para o Brasil, descansei no campo base. Ajustei minha mente e parti ao último ciclo de aclimatação, que buscava tocar o C3 ou chegar o mais próximo possível ,sem a utilização de O2.

 

01/05 – Ciclo de Aclimatação

Mi amore! Este ciclo foi muito bom para minha aclimatação fisiológica! As duas noites a 6600m foram difíceis e ventosas, cabeça pensando muita coisa. No primeiro dia, subindo ao C2, não parava de pensar nas dificuldades de contato com Zeca.

Depois de uma noite tumultuada e nevada, acordei e sai determinado a tocar o C3! Pasang estava mais pesado que eu, e nos dispersamos logo no começo da subida. Tinha um alemão e um americano à minha frente, foquei em subir e quando eles começassem a descer eu também iniciaria minha descida para não ficar sozinho acima dos 7000m. O dia estava fechado, neve intermitente, pouca visibilidade. A subida é manhosa, trechos mistos de rocha aparente e gelo duro, exigindo movimentos desafiadores e a escolha da corda correta. Cheguei aos pés do C3 a 7260m! Quando vi os dois alpinistas descendo, cumpri o combinado comigo mesmo e comecei a descer também. Encontrei Pasang próximo ao acampamento me esperando! Percebi que tinha um parceiro e não apenas um Sherpa. Estamos em uma sintonia muito legal.

Passamos essa segunda noite no C2 e fomos informados do Puja! Às 8h430  já estávamos no BC para celebração. AÍ foi rezar primeiro, bebida e dança nepalesa depois! São 21h e me recosto novamente, não irei botar pressão para subir rápido a montanha, mas já me sinto muito bem preparado para uma tentativa segura e assertiva. Agora é contar com a janela!!!

 

07/05 – Organização

Por aqui tudo certo! Arrumando minhas coisas para sair amanhã com tudo organizado. O clima já está muito mais quente. Essa noite a temperatura era de -2 graus. Acredito que vamos ter boas chances e desta vez estarei sempre no mesmo campo que o grupo. Ou seja, movendo não na mesma velocidade, mas chegando ao mesmo destino. Me sinto bem de saúde, que é o principal. Focar nestes próximos quatro dias de ascensão e voltar para casa, te abraçar, beijar e estar com o Zeca todo tempo!

 

08/05 – Emoção

Estou abrindo os olhos e logo devo levantar para tomar um café e subir! Estarei com você a cada passo.

 

13/05 – O cume

Quantos sentimentos nessas últimas 24h!! O dia e a noite de ontem foram muito difíceis e demoraram infinitamente pra passar! Cochilava e acordava naturalmente a cada uma hora. Por mais que tente me manter muito otimista é dificílimo ficar aqui tão impotente! Quando deitei pra tentar dormir, fiquei um tempo visualizando mentalmente você na montanha e rezando para que todos os espíritos que sei que me protegem estivessem com você em cada momento!

*Fiz o cume dia 13 e no mesmo dia desci do campo 4 ao campo base chegando às 21h30 para o merecido descanso. Corpo exausto, mente ainda ativa e emoções a flor da pele. No dia de cume cai em uma greta a aproximadamente 8200m sem auxílio de oxigênio suplementar. O Sherpa que estava me acompanhando adoeceu antes do dia de cume e acabei subindo solitário. Estar dentro de uma greta por 15 minutos, sem oxigênio e sentindo um frio intenso , foi uma experiência traumática! O momento da queda não saiu da minha mente por um bom tempo, falar da queda não era comum e não me sentia bem. Certamente ganhei mais uma oportunidade de vida e consciência sobre uma subida em solo sem oxigênio.

 

14/05 – Dia Seguinte

A vida e a morte que temos conceituadas andam próximas o tempo inteiro. O medo ignorante de morrer é uma ilusão, tudo depende de como enxergamos sobretudo a morte! Meu sentimento é que demorarei para partir e poderei ainda realizar muito por aqui!”

 

 


Escrito por

Rachel Magalhães

Jornalista, formada pela FIAM-FAAM. Apaixonada por aventuras, ama viajar, conhecer novos lugares e estar em contato com a natureza. Faz parte do time da The North Face há oito anos.