Inspiração

Há mais ou menos um mês, divulgamos via Instagram que o alpinista e parceiro Moeses Fiamoncini encararia o Annapurna e seus 8091 metros de altitude rumo ao cume.

Neste post você encontra o relato super detalhado, preparado por Moeses, de tudo que foi vivido nessa expedição. Os detalhes são de arrepiar e emocionar. Confira!

Annapurna 2022

“Muitos artigos sobre o mundo do alpinismo descrevem o Annapurna e o K2 como as montanhas mais perigosas do mundo. Cada alpinista terá sua própria história com elas. Eu fiz o K2 sem oxigênio na minha primeira tentativa e acabo de tentar o Annapurna pela segunda vez, sem sucesso. Ou talvez, deveria dizer com sucesso, pois voltei com vida.

Estava a apenas duas horas do cume – 7.900 metros – quando fui pego pelo mal da altitude. Comecei a sentir confusão mental, tontura e dificuldade para andar. Além dos sangramentos no nariz. Era 09h da manhã, esperei por duas horas sentado, embora soubesse que os sintomas não iriam passar. Nessa situação, existem duas alternativas: você desce e rapidamente fica bem, ou você continua subindo e assume os riscos. A decisão de descer é mais difícil do que escalar qualquer montanha. Enquanto permanecia ali sentado com minha ilusão de que meus sintomas pudessem simplesmente desaparecer, dois alpinistas que também não levavam oxigênio passaram por mim e me incentivaram a continuar subindo. Foi doloroso, mas peguei toda a minha frustração e decidi descer.

Dois dias depois, com um clima péssimo, cheguei ao campo base pela noite. Na manhã seguinte, dia 30 de abril, o helicóptero de resgate estava à procura dos dois alpinistas que passaram por mim. Após chegarem ao cume, eles tiveram dificuldade de voltar ao campo 4 por conta de uma tempestade com ventos de 60km/h e não puderam encontrar suas barracas. Ambos sofreram severos efeitos de frosbite. Entendo a decisão deles de continuar subindo, entendo como ninguém! Os dois são excelentes alpinistas, com larga experiência. Escolhi voltar e não os julgo.

O que faltou a todos nós que não usamos oxigênio, foi aclimatação. Quando se fala em Annapurna e aclimatação, fala-se de uma longa história que envolve a geografia e o clima impiedoso dessa montanha.  Para ficar mais claro, podemos fazer uma comparação com o K2, que tem 8.611 metros de altitude. O K2 é a segunda montanha mais alta do mundo, enquanto o Annapurna, com 8091 metros, é apenas a décima.

O campo base do K2 está localizado a 5 mil metros de altitude, já o do Annapurna está a 4.100. No K2 resta, portanto, uma altimetria de 3.611 metros a ser vencida. No Annapurna, essa altimetria passa a 3.991. Ou seja, temos a nossa frente um paredão de praticamente 4 mil metros a ser escalado! Não é uma parede qualquer, pois se compõe de trajetos muito arriscados. Tão arriscados, que dificultam seriamente a aclimatação dos alpinistas.

A travessia entre o campo 2 e o campo 3 é o trajeto mais complexo, com paredes de gelo muito íngremes, rota de frequentes avalanches e deslizamentos de seracs. Há outra rota? Sim, ainda mais perigosa! Isso faz com que nós alpinistas não passemos dos 5.500 para aclimatar, quando o ideal seria fazermos rotações próximas aos 7 mil metros de altitude. Falando a verdade, essa travessia é uma verdadeira roleta russa.

Concluída essa etapa que exige toda nossa força física e psicológica, chegamos finalmente ao campo 3, que deveria ser uma espécie de oásis após toda a dificuldade para chegar ali. Mas ficou longe de ser. Nesta etapa, as barracas são montadas mais ou menos a 6.200 metros sobre um glaciar com blocos de gelo instáveis. “Dormimos” ouvindo o ruído constante do gelo se quebrando. O Annapurna é um fenômeno da natureza, tamanha sua beleza, mas não dá uma trégua sequer.

Se temos um campo 3 montado em torno dos 6.200 metros, o campo 4 é dividido entre 6.700 e 6.900 metros. Quase todos do grupo, inclusive eu, ficamos no campo de 6.700. Isso significa que nos restou uma altimetria de 1.400 metros para o ataque ao cume, trajeto que envolve novas paredes íngremes a serem escaladas e neve, muita neve!

O Annapurna fica em uma posição geográfica em que recebe muito vento e frequentes nevascas, além do frio excessivo. A montanha parece possuir seu próprio microclima. As temperaturas nesta época do ano no campo 4 variam entre -35/-45 graus. Tudo isso diminui nossas opções de lograr alguns dias seguidos de tempo bom para tentarmos chegar ao cume, o que chamamos de “janela”.

No dia do ataque ao cume, o tempo estava realmente bom, com sol e pouco vento. Mas tempo bom em alta montanha nunca dura muito. O dia mais lindo do mundo pode se transformar em uma tempestade avassaladora em poucos minutos. Foi exatamente isso que contribuiu para que meus amigos alpinistas se perdessem na montanha durante a descida. Ambos passaram duas noites perdidos na montanha sob tempestade, acima dos 7 mil metros. É incrível o fato de estarem vivos.

Esse relato, ainda que tenha sido longo, foi um pequeno resumo dessa experiência que foi o Annapurna esse ano. Voltarei ao Annapurna em algum momento da minha trajetória. Todos os anos muitos outros alpinistas tentarão chegar lá. Só posso desejar a todos nós, muita sabedoria e muita sorte.”

 

Moeses Fiamoncini


Escrito por

Rachel Magalhães

Jornalista, formada pela FIAM-FAAM. Apaixonada por aventuras, ama viajar, conhecer lugares novos e estar em contato com a natureza. Faz parte do time da The North Face há oito anos.