Inspiração

Quem tem coragem de se jogar na natureza com o coração e a mente abertos nunca volta igual. Nós recebemos muitos relatos de pessoas que decidiram tirar um tempo para viver uma aventura e acabaram sendo transformados por ela. O Joy Oda sentiu isso no Caminho de Santiago (relembre essa história aqui) e o fotógrafo e viajante Fayson Merege também teve uma experiência intensa e profunda fazendo a Trilha de Salkantay, no Peru, e refazendo os caminhos da antiga civilização Inca.

Ele contou para gente todos os detalhes e o resultado dessa viagem. Confira as fotos incríveis e o depoimento de Fayson na íntegra:

“Eleita pela National Geographic como uma das 25 trilhas mais bonitas do mundo, percorrer os caminhos que levam ao Salkantay, é um esforço muito mais mental do que físico. É importante ressaltar que todo planejamento se faz necessário para trekkings em altitudes elevadas, visto que, um erro ou descuido podem resultar em uma fatalidade. Conhecer bem o local, ou ter um prévio planejamento se fazem necessários para os desafios que vêm pela frente. É importante lembrar também que em toda e qualquer atividade de montanha (principalmente quando envolve altitude), saber sobre o clima na época da sua viagem vai definir a roupa, tempo necessário e equipamentos que farão parte na mochila.

Lembre-se: é de extrema importância que o seu corpo tenha tempo hábil para se aclimatar e acostumar com a altitude.

Os primeiros passos começam em Challacancha, com belas vistas cênicas sobre o majestoso Salkantay, contornando o Vale do Rio Apurímac através das planícies de Anta. A distância até o camping Soraypampa é de aproximadamente 15km. Em ritmo normal, a duração da caminhada varia entre 3 a 4 horas. Entre o ponto inicial e o camping existe uma variação de 1000m de altitude, já que em Challacancha a caminhada inicia-se a 2850m e Soraypampa está em 3850m.

É possível fazer a trilha por conta própria ou contratar uma Agência (com valores entre 250-440 dólares). | Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

O camping base Soraypampa apresenta estruturas para pernoitar (incluso para quem contrata agências) ou você pode pagar a diária (dormir nos Domos ou em sua barraca própria). Os aventureiros que optam por fazer por conta própria têm como possibilidade dormir aos pés da Laguna Humantay (desde que esteja com barraca/saco de dormir que suportem o frio, que pode chegar a até -20ºC).

A ascensão desde o camping até a Laguna tem aproximadamente 800m de inclinação, 6km (ida/volta) e com muito esforço físico. Os passos são mais lentos, a respiração mais ofegante e a vista do vale, que pouco a pouco vai ficando para trás, é magnífica.

Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

Ao iniciar a subida, o clima estava instável. Com garoa, ar seco e solo escorregadio, cada passo tinha uma dificuldade a mais. Pouco a pouco a chuva foi parando, as cores cinza do dia nublado deram espaço a pequenos raios de sol e um arco-íris se formou no vale. A laguna Humantay é cercada pela imponente montanha Humantay com geleiras que fazem parte da Cordilheira dos Andes. Entretanto as majestosas montanhas cobertas de neve são as montanhas cobertas pelo nevado de Salkantay e Humantay que, no degelo, dão origem à esplêndida lagoa azul-turquesa. Chegar até ela transformará sua maneira de ver a natureza, aproveitando a flora e a fauna, que serão registradas para sempre na memória de sua vida, as fotografias e o ar 100% puro que o nosso corpo necessita. 

Normalmente de qualquer montanha do mundo fluem águas cristalinas, no entanto, a montanha Humaytay flui águas cristalinas com conteúdo mineral, como é o caso dos picos. Na parte inferior existem pedras coloridas de origem vulcânica.

Minha dica como fotógrafo é: ao chegar à Laguna Humantay, observe! Sinta o lugar. Analise as condições de luz, teste alguns ângulos e então crie fotos memoráveis. Não fotografe com pressa.

Em todos os meus trekkings e aventuras de longas caminhadas, o tempo a ser feito é o menor fator que importa para mim. Gosto de observar, sentir, fotografar, respirar…

A Laguna Humantay tem natureza intocada e também é chamada de “APU” (montanha sagrada). | Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

Estar presente nesse lugar e senti-lo é uma sensação única. A cor pode variar muito e tem relação direta com o clima e a incidência da luz. Ao chegar à base da Laguna, com luz em tons cinza, a cor era um verde esmeralda misturado com amarelo. Contornando ela cerca de 100m, ao alto de uma das margens para ter uma vista panorâmica do lugar, o azul turquesa tomou conta. Recomendo se esforçar um pouco mais nesses últimos metros de subida para ter essa visão e não somente ficar aos pés dela.

A água é potável (basta usar pastilhas purificadoras) e leva vida a alguns povoados da região. A área hoje é preservada e faz parte do Parque Nacional de Machu Picchu. A entrada na laguna é proibida justamente para preservação da mesma. Infelizmente o turismo maçante é uma realidade no local, já existem, inclusive, vários hotéis de luxo para hospedar-se. A opção viável para encontrar o lugar vazio é chegar lá antes das 8h da manhã ou após as 16h (caso esteja fazendo com uma agência, você terá apenas 45min de permanência para fazer suas fotos). Eu não apoio que turistas façam o percurso à cavalo, essa prática se tornou uma exploração (tanto no valor quanto nos maus tratos aos animais).

O esforço faz parte do trekking. É o seu contato com a natureza e o lugar. É uma experiência inesquecível e toda sua exaustão, ficará de lado após suas energias serem renovadas diante de um lugar sagrado para os quéchuas.

Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

O segundo dia é o mais exaustivo. São aproximadamente de 10 a 12 horas de caminhada entre os 22km que separam os dois campings (Soraypampa – Chaullay). Iniciei o trekking às 6h30 para fazer o trajeto com meu grupo com calma e desfrutando das paisagens. 

Embora abril seja o mês de transições entre as estações, a mudança climática é bastante repentina e nenhuma previsão é 100% certa. O dia iniciou-se com raios de sol ao topo do Salkantay e temperatura agradável (na casa dos 10ºC). O trajeto até o Abra Salkantay (a placa diz 4.600m, porém, alguns guias dizem ter 4.630m) tem 7,5km, subindo montanha acima com vistas icônicas da região e montanhas rochosas. O imponente nevado Salkantay tem 6.424m e é conhecido como a segunda montanha mais alta na região de Cusco.

Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

Ele é o objetivo que todos os aventureiros buscam: chegar à base do Abra Salkantay é o desafio maior em toda a trilha. O segredo aqui (principalmente aos iniciantes) é: Suba lentamente, tome muitos líquidos e caso comece apresentar sintomas como dor de cabeça e enjoo, é melhor parar. É possível comprar nas farmácias peruanas o que eles chamam de “água de florida”. Inalando-a através de algumas gotas na mão, ela ajuda a abrir as vias respiratórias.

Esse trecho é absurdamente cansativo e exaustivo. O ar que respirava era gelado e parecia que entrava empurrando o pulmão para o chão. Além de desviar das mulas e cavalos, que hora ou outra passam carregando turistas, a parte mais íngreme é com solo de pedras, ou seja: dupla dificuldade para subir.

Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

Nem tudo são flores na vida dos aventureiros. E para nossa surpresa, enquanto atravessamos o refúgio Suyroqocha (4.480m), o tempo virou completamente. A neblina aumentou e a intensidade do frio também. Quando chegamos à famosa placa “Abra Salkantay”, a temperatura estava em -5ºC. Não conseguimos ver Salkantay a poucos metros dos nossos olhos, infelizmente! Porém, independente disso, estar ali é um objetivo concluído e a lágrima escorre pelo canto do olho. A natureza merece sua divindade e nós precisamos respeitá-la e, principalmente, reverenciá-la.

A situação ficou pior: começou a chover. O vento aumentou para 25km/h dificultando a descida. Não enxergávamos nada além de 2m de distância.

Caminhar a 4.600m tem suas dificuldades, porém, com chuva, vento e frio, o nível é elevado ao triplo. Todo cuidado é muito pouco para não cair e se machucar. Até chegar ao camping Chawlay são aproximadamente 6h, adentrando à zona tropical da selva peruana. Nesta área o clima fica um pouco mais ameno com temperatura agradável.

Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

O 3º e 4º dia são mais tranquilos no quesito dificuldade. O ‘problema’ é o calor e os mosquitos. Saindo de Chaullay até Santa Teresa são aproximadamente 6 horas. De Santa Teresa até Águas Calientes (povoado aos pés de Machu Picchu) também são 6 horas. O sol forte judia nesses dois dias e o desgaste físico é maior (em minha opinião). Por perder mais líquidos, a reposição com isotônicos e água é em dobro.

No trecho entre Chaullay em direção ao povoado chamado La Playa (Sahuayaco) é possível ver nascentes de águas termais em estado natural, árvores frutíferas, variedades de plantas, orquídeas, cachoeiras, plantios de café, abacate e o ‘maracujá doce’ (Granadilla) e ter a oportunidade de descansar na aldeia Wiñaypocco,chamado também de ‘Floresta Tropical’.

La Playa (Sahuayaco). | Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

A caminhada não tem muitos aclives e declives nesse trajeto e de repente a gente entra na chamada Amazônia Peruana. O clima muda completamente, como se passássemos em um portal. A aridez as pedras dão lugar a uma floresta densa e os rios ficam mais abundantes. Em várias partes da trilha é necessário atravessar alguns cursos de água. A essa altura o sol vai ficando cada vez mais quente e a umidade da floresta é maior.

Quem se aventura por toda a trilha Salkantay com o coração aberto às ‘misticidades’ do caminho trilhado pelos incas consegue sentir a ‘energia’ que abrange o caminhar, principalmente no último trajeto feito entre a hidroelétrica até Águas Calientes, com o curso do Rio Urubamba sempre ao lado e a Montanha Picchu ao fundo.

Fechando com chave de ouro a minha aventura, subi os mais de 2mil degraus para chegar ao topo da Montanha Picchu (3080m). Penso que realizar essa aventura não é apostar uma ‘corrida’ para ver quem chega primeiro ao destino final. Em minha opinião, é uma trilha que é para ser desfrutada passo a passo, principalmente observando as belezas do caminho.

Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

Após 5 dias de trilha, chegar à Machu Picchu tem um sabor diferente. Vivenciar essa experiência marcante é algo único, que deve ser feito pelo menos uma vez na vida.

Superar não só os obstáculos adversos, mas principalmente o obstáculo mental, é o desafio na jornada. Seu corpo constantemente pede descanso, as pernas doem, os pés estão calejados. Contudo sua mente em seu subconsciente diz: ‘você pode, você é capaz’. Ou como dizem os andinos: ‘Si se puede’.

Foto: Fayson Merege/Arquivo Pessoal

Acho impressionante como a prática da caminhada ao ar livre se assemelha a toda uma trajetória de vida. No trekking, encontramos dificuldades, alegrias, momentos difíceis, realizações, medo, descobrimos nossos limites, estimulamos a autoconfiança e planejamos alguns passos. E na vida também é assim. E vai além: caímos, levantamos, encontramos pedras, percorremos caminhos altos e baixos, nos distanciamos de pessoas, nos perdemos, nos encontramos, andamos sozinhos, andamos acompanhados, fazemos amigos, ganhamos desafetos e sempre estamos buscamos o ponto mais alto: a nossa realização pessoal. Além disso, enxergo que o trekking seja uma verdadeira escola que tem um papel muito forte na construção de alguns valores, como solidariedade, companheirismo, consciência ecológica e diversos outros. Há quem possa dizer que tudo isso é bobagem, que o trekking não passa apenas de uma atividade ao ar livre. Nada além disso. Mas, em minha opinião, o trekking ajuda no processo de construção de identidade, como por exemplo, ter uma visão menos materialista do mundo, mas é certo dizer que não possui nenhuma garantia de mudança. Ele dá a oportunidade, mas vai de pessoa para pessoa.”

 


Escrito por

Thaís Teisen

Jornalista, formada pela FIAM-FAAM, com especialização em Mídias Digitais pela Universidade Metodista de São Paulo. É apaixonada por esportes, natureza, música e faz parte do time The North Face de Conteúdo Digital.